Você abre os olhos e sente-se dentro de uma caixa, tenta mover suas pernas, seus braços mas não consegue mover nem mesmo um milímetro do corpo. Até respirar se tornou uma tarefa difícil, por isso puseram-lhe um tubo no nariz, por onde recebe ar e um aparelho interno que faz seu pulmão funcionar, porque afinal, você foi um jovem que gostava de "diversão". Suas carteiras diárias de cigarros renderam-lhe um câncer; bela diversão. Existem outros tubos, por onde você se alimenta e recebe nutrientes, afinal, sua diversão rendeu a você o seu segundo tumor no fígado, causado por excesso de bebida; bela diversão, amigo. "Não vai ser uma vez sem camisinha que vai me matar", meus sinceros parabéns, foi pensando assim que você contraiu HIV. Boa diversão.
Então você percebe o quarto bege claro ao seu redor; não é necessário enxergar muito bem para saber que trata-se de um quarto de hospital. Pelo menos sua visão ainda serve de alguma coisa.
Parabéns meu jovem, este agora é o seu aposento real. Divertido, não? Você sente pontadas muito fortes no peito ao tentar novamente se mover. Nada mais do que você adorava pode acontecer de novo. Acabaram as festas, você não se mexe mais; acabou o sexo, você se tornou impotente há tempos; acabou o rock n' roll, você não é capaz nem mesmo de tocar sua guitarra, apenas as drogas não lhe abandonaram, mas estas agora são outras e servem apenas para mantê-lo dormindo para que não sinta muita dor.
Mais uma vez sinto-me na obrigação de parabenizá-lo por sua esperteza. Auto-destruição desde os 13 anos e agora, depois de 10 anos parecer mais velho do que realmente é e estar numa cama de hospital por puro descaso é mesmo digno de palmas. Então olho para você bem no fundo dos seus olhos e posso então sentir seu desespero; você sabe que eu estou aqui. Se eu pudesse ficaria aqui e esperaria mais um tempo sentada para que seus familiares chegassem e pudessem despedir-se de você, mas eu não tenho tempo para choradeiras - ou tenho. O fato é que não tenho a mínima paciência para esse tipo de coisa; vejo isso todos os dias -, então, dou um último suspiro e estico-me para abraçá-lo e mostro-lhe minha face. Seu coração subtamente para e não há mais tempo para procedimentos médicos.
Bem vindo, amigo; eu sou a Morte.
Amanda Carvalho.